domingo, 16 de outubro de 2011

A hora da estrela


A partir dos textos da  autora Clarice Lispector, analisados em aula e o filme assistido, explique o que são os momentos de epifania.

sábado, 1 de outubro de 2011

Contar histórias em casa: a narrativa como memória familiar

Por: José Ruy Lozano, é professor do Ético Sistema de Ensino (www.sejaetico.com.br), da Editora Saraiva, e licenciado em ciências sociais e letras pela Universidade de São Paulo (USP)


A palavra “narrativa” é bastante conhecida. As pessoas de mais idade cresceram ouvindo seus pais e avós contando histórias e aprenderam a produzir narrativas na escola, principalmente nas séries iniciais. No mundo dos adultos, informa-se, diz-se, opina-se, twitta-se, fofoca-se, mas muito pouco se narra. Na sociedade contemporânea em particular, o espaço da narrativa no meio familiar encontra-se cada vez mais reduzido, sitiado pelo distanciamento e pelas novas mídias.
No mundo da tradição, anterior ao mundo moderno, a narrativa associava-se à experiência. O saber feito da experiência do passado e da vivência do mundo se tornava fonte de histórias, passadas oralmente de geração em geração, ou, nos meios letrados, por meio da escrita. O discurso do narrador continha intenções educativas: os enredos guardavam ensinamentos, justificavam provérbios ou sustentavam conselhos.  
O aconselhamento tradicionalmente se configurava como necessidade social: tratava-se da transmissão do saber adquirido pelos mais idosos e experientes ou por aqueles que retornavam ao lar, que vieram de longe e carregavam conhecimentos inéditos. Ou mesmo pelos que jamais deixaram sua terra e sua gente, mas as conheciam como ninguém. O narrador mostrava-se, assim, como portador de uma sabedoria especial. À sua experiência mesclava a vivência dos outros.  
Portanto, o aconselhamento elaborado internamente, na substância viva da vida, tinha o nome respeitável de sabedoria, talvez em processo de extinção. O mundo moderno preza “notícias” e não “narrativas”. Dessa forma, estamos cada vez mais privados de uma possibilidade que parecia estável e imprescindível: a possibilidade de trocar experiências. Adquirimos intensamente informações úteis, a curto prazo, e deixamos de lado o conhecimento experimentado ao longo do tempo. Nesse quadro, há pouco espaço para o encantamento. Todos os dias, chega pelo noticiário uma multiplicidade de fatos já acompanhados de explicações especializadas. Mas o encanto e a arte da narrativa estão em não haver explicações prévias.  
Os efeitos dessa configuração social que sufoca a narrativa são nefastos. O primeiro deles é a crise da atenção. Se nada é permanente, muito pouco deve ser registrado. Informações instantâneas têm duração curta: o interesse por elas é passageiro ou conjuntural. Outro efeito é a diminuição da imaginação.   
Se a informação simplesmente reproduz a realidade, a narrativa pode ter o condão de transformá-la, por meio da imaginação de um mundo diferente, inusitado. Sem a imaginação, estaremos condenados a repetir o cotidiano indefinidamente, sem vislumbrar saídas ou respostas que transcendam a realidade impositiva.   E o desaparecimento da arte de contar histórias na família? Qual o papel da memória, do passado, dos mais velhos, na educação dos mais jovens? Devemos ressaltar que uma das funções da narrativa é produzir a lembrança, perpetuar o que foi imprimir alguma marca duradoura no mundo.   
A narrativa conserva suas forças por muito tempo, permanecendo na lembrança muito além do dia em que foi produzida. Se queremos ensinar algo, o exemplo e a narrativa, portadora de saberes e plena de vivência coletiva - de cultura, portanto, são os grandes veículos com os quais podemos contar. 

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Amor
(Luiza Telexa Espinosa)
            Seria o amor, tudo que as pessoas realmente pensam que é? Um sentimento puro, angelical, que nunca se acaba, nem diminui? Uma forma de gostar tão forte, que ultrapassa qualquer obstáculo?           
            A meu ver, o amor, é instável, relativo e tem prazo de validade o “pra sempre” não existe. No entanto, quando ele está lá, instalado no coração, quando ele é sentido de uma forma avassaladora, ninguém duvida de que ele exista.
            Mas perceba, as pessoas até podem ficar até o fim da vida juntos, mas por apego, comodismo, afeto, por não querer destruir o “lar”, arriscando assim sua própria felicidade. Afinal, o amor aquele que se diz forte e intenso acaba. Contudo, isso não quer dizer que o Amor não exista, de forma alguma! Eu acredito que o amor verdadeiro, esteja nas relações familiares, nas amizades. E quando duvido da sua forma angelical, digo isso; pois o amor se dá na convivência diária, na cumplicidade, e de certa forma no dever que as pessoas tem umas para com as outras.
            Tal como mostram as estatísticas, as pessoas cada vez menos acreditam no amor puro, divino, comum nas novelas e contos de fada, e isso pode ser percebido até mesmo ao nosso lado. O ‘pra sempre’ já se foi, e acredito que com ele o amor também.

Clarice Lispector

O romance introspectivo de Clarice Lispector

Esse primeiro romance fez certo alarde entre os críticos brasileiros. Alguns acharam a obra intolerável e estranha; diziam que "essa escritora de nome esquisito" queria se exibir. Outros, como Antonio Cândido, apesar de não verem na obra a perfeição, reconheceram a coragem dessa escritora desconhecida em usar nossa língua para criar frases introspectivas originais, metáforas extravagantes e enredos muito diferentes dos que os romancistas regionalistas (Jorge Amado, Érico Veríssimo, Graciliano Ramo, José Lins do Rego) criavam na época, cujas obras engajadas politicamente todos gostavam.
Clarice estava introduzindo na literatura brasileira um novo modo de narrar, semelhante ao das escritoras de língua inglesa Katherine Mansfield e Virginia Woolf: o romance introspectivo, cujo enredo (a história) importa bem menos que o "mergulho" do narrador no fluxo de pensamento do personagem.
Esse mergulho é tão abrupto que o leitor depara-se com ele sem aviso do narrador. Joana, sua primeira protagonista, aparece no romance já capturada em meio a seus pensamentos. Veja os dois parágrafos iniciais de Perto do coração selvagem:
A máquina do papai batia tac-tac... tac-tac-tac... O relógio acordou em tin-dlen sem poeira. O silêncio arrastou-se zzzzzz. O guarda-roupa dizia o quê? roupa-roupa-roupa. Não, não. Entre o relógio, a máquina e o silêncio havia uma orelha à escuta, grande, cor-de-rosa e morta. Os três sons estavam ligados pela luz do dia e pelo ranger das folhinhas da árvore que se esfregavam umas nas outras radiantes.
Encostando a testa na vidraça brilhante e fria olhava para o quintal do vizinho, para o grande mundo das galinhas-que-não-sabiam-que-iam-morrer. E podia sentir como se estivesse bem próxima de seu nariz a terra quente, socada, tão cheirosa e seca, onde bem sabia, bem sabia uma ou outra minhoca se espreguiçava antes de ser comida pela galinha que as pessoas iam comer.
Um modo diferente de narrar
Percebe-se que o narrador captura o pensamento da personagem (que não se sabe ainda chamar-se Joana) e mostra isso através do discurso indireto livre. Tal estratégia de criar não foi inventada por Clarice Lispector, mas ela a usou como aspecto central de seu estilo em todas as suas obras. Nota-se também que a máquina de escrever é "do papai", portanto, logo de início, é a filha que tem seus pensamentos revelados - em total intimidade, pois ela está pensando apenas. Essa menina vai olhar com piedade para as galinhas "que não sabiam que iam morrer" e pensa nas minhocas que essas galinhas iam comer. Ou seja, nada é dito por Joana, para ninguém. É o narrador que a captura, e por isso cria um monólogo interior.
E nota-se as onomatopéias usadas (tac-tac... tac-tac-tac... O relógio acordou em tin-dlen sem poeira. O silêncio arrastou-se zzzzzz). Não era habitual na literatura vigente usar esses recursos. Além disso a escritora cria suas metáforas: "uma orelha grande, cor-de-rosa e morta". O que será isso? O que ela quer dizer? Não se sabe ao certo, mas a essas construções esquisitas Antonio Candido deu o nome de "metáforas insólitas", ou seja, metáforas muito inesperadas e bastante originais.
Toda a obra posterior de Clarice (contos e romances) "persegue" esse modo de narrar. A partir de 1960, depois de escrever mais alguns romances, Clarice volta ao Rio de Janeiro e consolida sua grande carreira de contista.
Quando mudou-se para Nápoles, começou a escrever outro romance, O Lustre, publicado em 1946. Em 1949, foi publicado outro romance, A Cidade Sitiada, cujos personagens são mais corpos que consciência, mais objetos que suspeitos, o mal aparece e se faz presente. Depois, foi publicado, um livro de contos chamado Alguns Contos, no ano de 1952.
No ano de 1960, foi publicado Laços de Família, livro de literatura brasileira absolutamente renovado, que também atingiu o mais alto patamar da arte da escrita ficcional. Em 1961, foi publicado A maçã no escuro, um romance. Em 1964 foi publicado o livro de contos A Legião estrangeira e o romance A paixão segundo G. H.. No ano de 1967 recebeu o prêmio Calunga, da Campanha Nacional de Criança, pela publicação de O Mistério do Coelho Pensante, publicado no mesmo ano. Em 1969, foi publicado Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, um romance, e A mulher que matou os peixes, um livro infantil.
Foram publicados também Água Viva, em 1973, onde Lispector leva a extremos a insurreição formal e a desestruturação da forma romancesca, criando um gênero híbrico, marcado pela fluidez, pela aparência inacabada e inconclusa, produto da liberdade. Ainda em 73, teve publicação A vida íntima da Laura, um livro infantil. Entre 1974 e 1977, foram publicados A via-crucis do corpo, Onde estiveste de noite, De corpo inteiro, um livro de entrevistas, Visão do Esplendor e o seu último livro publicado no ano de sua morte A hora da estrela, uma novela.
Clarice Lispector tem um estilo literário inconfundível, presente em toda sua obra. A renovação da linguagem se encontra constante num grau que aproxima a prosa da poesia. Seus textos, apenas narram histórias, mas também apresentam a síntese e a força expressiva típicas da poesia. Além da linguagem, outro aspecto inovador na obra de Clarice é a visão do mundo que surge de suas histórias.
Mesmo tendo se iniciado como escritura numa época em que os romancistas brasileiros estavam voltados para a literatura regionalista ou de denúncia social, Clarice enfocou em seus textos o ser humano em suas angústias e questionamentos existenciais. Em suas narrativas, o enredo, bem como as personagens, as referências de tempo e espaço ganham novos significados: o enredo é quase sempre psicológico. O tempo e o espaço, por sua vez tem pouca influência sobre o comportamento das personagens; o tempo é psicológico e espaço é quase acidental.
A indiscutível originalidade e a perturbadora percepção da validade presentes na obra de Lispector a tornam única dentro da literatura brasileira. É impossível ficar-se indiferente diante do texto de Clarice, pois a força da sua linguagem, a intensidade das emoções das suas personagens atingem em cheio o leitor, provocando no mínimo um incômodo estranhamento. É como se o texto convidasse o leitor à desvendá-lo e, desvendando-o, descobrisse um pouco mais do ser humano.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011



Soneto de Fidelidade
Vinicius de Moraes

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.


Vinicius de Moraes, "Antologia Poética", Rio de Janeiro, 1960, pág. 96.