Contar histórias em casa: a narrativa como memória familiar
Por: José Ruy Lozano, é professor do Ético Sistema de Ensino (www.sejaetico.com.br), da Editora Saraiva, e licenciado em ciências sociais e letras pela Universidade de São Paulo (USP)
A palavra “narrativa” é bastante conhecida. As pessoas de mais idade cresceram ouvindo seus pais e avós contando histórias e aprenderam a produzir narrativas na escola, principalmente nas séries iniciais. No mundo dos adultos, informa-se, diz-se, opina-se, twitta-se, fofoca-se, mas muito pouco se narra. Na sociedade contemporânea em particular, o espaço da narrativa no meio familiar encontra-se cada vez mais reduzido, sitiado pelo distanciamento e pelas novas mídias.
No mundo da tradição, anterior ao mundo moderno, a narrativa associava-se à experiência. O saber feito da experiência do passado e da vivência do mundo se tornava fonte de histórias, passadas oralmente de geração em geração, ou, nos meios letrados, por meio da escrita. O discurso do narrador continha intenções educativas: os enredos guardavam ensinamentos, justificavam provérbios ou sustentavam conselhos.
O aconselhamento tradicionalmente se configurava como necessidade social: tratava-se da transmissão do saber adquirido pelos mais idosos e experientes ou por aqueles que retornavam ao lar, que vieram de longe e carregavam conhecimentos inéditos. Ou mesmo pelos que jamais deixaram sua terra e sua gente, mas as conheciam como ninguém. O narrador mostrava-se, assim, como portador de uma sabedoria especial. À sua experiência mesclava a vivência dos outros.
Portanto, o aconselhamento elaborado internamente, na substância viva da vida, tinha o nome respeitável de sabedoria, talvez em processo de extinção. O mundo moderno preza “notícias” e não “narrativas”. Dessa forma, estamos cada vez mais privados de uma possibilidade que parecia estável e imprescindível: a possibilidade de trocar experiências. Adquirimos intensamente informações úteis, a curto prazo, e deixamos de lado o conhecimento experimentado ao longo do tempo. Nesse quadro, há pouco espaço para o encantamento. Todos os dias, chega pelo noticiário uma multiplicidade de fatos já acompanhados de explicações especializadas. Mas o encanto e a arte da narrativa estão em não haver explicações prévias.
Os efeitos dessa configuração social que sufoca a narrativa são nefastos. O primeiro deles é a crise da atenção. Se nada é permanente, muito pouco deve ser registrado. Informações instantâneas têm duração curta: o interesse por elas é passageiro ou conjuntural. Outro efeito é a diminuição da imaginação.
Se a informação simplesmente reproduz a realidade, a narrativa pode ter o condão de transformá-la, por meio da imaginação de um mundo diferente, inusitado. Sem a imaginação, estaremos condenados a repetir o cotidiano indefinidamente, sem vislumbrar saídas ou respostas que transcendam a realidade impositiva. E o desaparecimento da arte de contar histórias na família? Qual o papel da memória, do passado, dos mais velhos, na educação dos mais jovens? Devemos ressaltar que uma das funções da narrativa é produzir a lembrança, perpetuar o que foi imprimir alguma marca duradoura no mundo.
A narrativa conserva suas forças por muito tempo, permanecendo na lembrança muito além do dia em que foi produzida. Se queremos ensinar algo, o exemplo e a narrativa, portadora de saberes e plena de vivência coletiva - de cultura, portanto, são os grandes veículos com os quais podemos contar.
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