domingo, 16 de outubro de 2011

A hora da estrela


A partir dos textos da  autora Clarice Lispector, analisados em aula e o filme assistido, explique o que são os momentos de epifania.

sábado, 1 de outubro de 2011

Contar histórias em casa: a narrativa como memória familiar

Por: José Ruy Lozano, é professor do Ético Sistema de Ensino (www.sejaetico.com.br), da Editora Saraiva, e licenciado em ciências sociais e letras pela Universidade de São Paulo (USP)


A palavra “narrativa” é bastante conhecida. As pessoas de mais idade cresceram ouvindo seus pais e avós contando histórias e aprenderam a produzir narrativas na escola, principalmente nas séries iniciais. No mundo dos adultos, informa-se, diz-se, opina-se, twitta-se, fofoca-se, mas muito pouco se narra. Na sociedade contemporânea em particular, o espaço da narrativa no meio familiar encontra-se cada vez mais reduzido, sitiado pelo distanciamento e pelas novas mídias.
No mundo da tradição, anterior ao mundo moderno, a narrativa associava-se à experiência. O saber feito da experiência do passado e da vivência do mundo se tornava fonte de histórias, passadas oralmente de geração em geração, ou, nos meios letrados, por meio da escrita. O discurso do narrador continha intenções educativas: os enredos guardavam ensinamentos, justificavam provérbios ou sustentavam conselhos.  
O aconselhamento tradicionalmente se configurava como necessidade social: tratava-se da transmissão do saber adquirido pelos mais idosos e experientes ou por aqueles que retornavam ao lar, que vieram de longe e carregavam conhecimentos inéditos. Ou mesmo pelos que jamais deixaram sua terra e sua gente, mas as conheciam como ninguém. O narrador mostrava-se, assim, como portador de uma sabedoria especial. À sua experiência mesclava a vivência dos outros.  
Portanto, o aconselhamento elaborado internamente, na substância viva da vida, tinha o nome respeitável de sabedoria, talvez em processo de extinção. O mundo moderno preza “notícias” e não “narrativas”. Dessa forma, estamos cada vez mais privados de uma possibilidade que parecia estável e imprescindível: a possibilidade de trocar experiências. Adquirimos intensamente informações úteis, a curto prazo, e deixamos de lado o conhecimento experimentado ao longo do tempo. Nesse quadro, há pouco espaço para o encantamento. Todos os dias, chega pelo noticiário uma multiplicidade de fatos já acompanhados de explicações especializadas. Mas o encanto e a arte da narrativa estão em não haver explicações prévias.  
Os efeitos dessa configuração social que sufoca a narrativa são nefastos. O primeiro deles é a crise da atenção. Se nada é permanente, muito pouco deve ser registrado. Informações instantâneas têm duração curta: o interesse por elas é passageiro ou conjuntural. Outro efeito é a diminuição da imaginação.   
Se a informação simplesmente reproduz a realidade, a narrativa pode ter o condão de transformá-la, por meio da imaginação de um mundo diferente, inusitado. Sem a imaginação, estaremos condenados a repetir o cotidiano indefinidamente, sem vislumbrar saídas ou respostas que transcendam a realidade impositiva.   E o desaparecimento da arte de contar histórias na família? Qual o papel da memória, do passado, dos mais velhos, na educação dos mais jovens? Devemos ressaltar que uma das funções da narrativa é produzir a lembrança, perpetuar o que foi imprimir alguma marca duradoura no mundo.   
A narrativa conserva suas forças por muito tempo, permanecendo na lembrança muito além do dia em que foi produzida. Se queremos ensinar algo, o exemplo e a narrativa, portadora de saberes e plena de vivência coletiva - de cultura, portanto, são os grandes veículos com os quais podemos contar. 

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Amor
(Luiza Telexa Espinosa)
            Seria o amor, tudo que as pessoas realmente pensam que é? Um sentimento puro, angelical, que nunca se acaba, nem diminui? Uma forma de gostar tão forte, que ultrapassa qualquer obstáculo?           
            A meu ver, o amor, é instável, relativo e tem prazo de validade o “pra sempre” não existe. No entanto, quando ele está lá, instalado no coração, quando ele é sentido de uma forma avassaladora, ninguém duvida de que ele exista.
            Mas perceba, as pessoas até podem ficar até o fim da vida juntos, mas por apego, comodismo, afeto, por não querer destruir o “lar”, arriscando assim sua própria felicidade. Afinal, o amor aquele que se diz forte e intenso acaba. Contudo, isso não quer dizer que o Amor não exista, de forma alguma! Eu acredito que o amor verdadeiro, esteja nas relações familiares, nas amizades. E quando duvido da sua forma angelical, digo isso; pois o amor se dá na convivência diária, na cumplicidade, e de certa forma no dever que as pessoas tem umas para com as outras.
            Tal como mostram as estatísticas, as pessoas cada vez menos acreditam no amor puro, divino, comum nas novelas e contos de fada, e isso pode ser percebido até mesmo ao nosso lado. O ‘pra sempre’ já se foi, e acredito que com ele o amor também.

Clarice Lispector

O romance introspectivo de Clarice Lispector

Esse primeiro romance fez certo alarde entre os críticos brasileiros. Alguns acharam a obra intolerável e estranha; diziam que "essa escritora de nome esquisito" queria se exibir. Outros, como Antonio Cândido, apesar de não verem na obra a perfeição, reconheceram a coragem dessa escritora desconhecida em usar nossa língua para criar frases introspectivas originais, metáforas extravagantes e enredos muito diferentes dos que os romancistas regionalistas (Jorge Amado, Érico Veríssimo, Graciliano Ramo, José Lins do Rego) criavam na época, cujas obras engajadas politicamente todos gostavam.
Clarice estava introduzindo na literatura brasileira um novo modo de narrar, semelhante ao das escritoras de língua inglesa Katherine Mansfield e Virginia Woolf: o romance introspectivo, cujo enredo (a história) importa bem menos que o "mergulho" do narrador no fluxo de pensamento do personagem.
Esse mergulho é tão abrupto que o leitor depara-se com ele sem aviso do narrador. Joana, sua primeira protagonista, aparece no romance já capturada em meio a seus pensamentos. Veja os dois parágrafos iniciais de Perto do coração selvagem:
A máquina do papai batia tac-tac... tac-tac-tac... O relógio acordou em tin-dlen sem poeira. O silêncio arrastou-se zzzzzz. O guarda-roupa dizia o quê? roupa-roupa-roupa. Não, não. Entre o relógio, a máquina e o silêncio havia uma orelha à escuta, grande, cor-de-rosa e morta. Os três sons estavam ligados pela luz do dia e pelo ranger das folhinhas da árvore que se esfregavam umas nas outras radiantes.
Encostando a testa na vidraça brilhante e fria olhava para o quintal do vizinho, para o grande mundo das galinhas-que-não-sabiam-que-iam-morrer. E podia sentir como se estivesse bem próxima de seu nariz a terra quente, socada, tão cheirosa e seca, onde bem sabia, bem sabia uma ou outra minhoca se espreguiçava antes de ser comida pela galinha que as pessoas iam comer.
Um modo diferente de narrar
Percebe-se que o narrador captura o pensamento da personagem (que não se sabe ainda chamar-se Joana) e mostra isso através do discurso indireto livre. Tal estratégia de criar não foi inventada por Clarice Lispector, mas ela a usou como aspecto central de seu estilo em todas as suas obras. Nota-se também que a máquina de escrever é "do papai", portanto, logo de início, é a filha que tem seus pensamentos revelados - em total intimidade, pois ela está pensando apenas. Essa menina vai olhar com piedade para as galinhas "que não sabiam que iam morrer" e pensa nas minhocas que essas galinhas iam comer. Ou seja, nada é dito por Joana, para ninguém. É o narrador que a captura, e por isso cria um monólogo interior.
E nota-se as onomatopéias usadas (tac-tac... tac-tac-tac... O relógio acordou em tin-dlen sem poeira. O silêncio arrastou-se zzzzzz). Não era habitual na literatura vigente usar esses recursos. Além disso a escritora cria suas metáforas: "uma orelha grande, cor-de-rosa e morta". O que será isso? O que ela quer dizer? Não se sabe ao certo, mas a essas construções esquisitas Antonio Candido deu o nome de "metáforas insólitas", ou seja, metáforas muito inesperadas e bastante originais.
Toda a obra posterior de Clarice (contos e romances) "persegue" esse modo de narrar. A partir de 1960, depois de escrever mais alguns romances, Clarice volta ao Rio de Janeiro e consolida sua grande carreira de contista.
Quando mudou-se para Nápoles, começou a escrever outro romance, O Lustre, publicado em 1946. Em 1949, foi publicado outro romance, A Cidade Sitiada, cujos personagens são mais corpos que consciência, mais objetos que suspeitos, o mal aparece e se faz presente. Depois, foi publicado, um livro de contos chamado Alguns Contos, no ano de 1952.
No ano de 1960, foi publicado Laços de Família, livro de literatura brasileira absolutamente renovado, que também atingiu o mais alto patamar da arte da escrita ficcional. Em 1961, foi publicado A maçã no escuro, um romance. Em 1964 foi publicado o livro de contos A Legião estrangeira e o romance A paixão segundo G. H.. No ano de 1967 recebeu o prêmio Calunga, da Campanha Nacional de Criança, pela publicação de O Mistério do Coelho Pensante, publicado no mesmo ano. Em 1969, foi publicado Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, um romance, e A mulher que matou os peixes, um livro infantil.
Foram publicados também Água Viva, em 1973, onde Lispector leva a extremos a insurreição formal e a desestruturação da forma romancesca, criando um gênero híbrico, marcado pela fluidez, pela aparência inacabada e inconclusa, produto da liberdade. Ainda em 73, teve publicação A vida íntima da Laura, um livro infantil. Entre 1974 e 1977, foram publicados A via-crucis do corpo, Onde estiveste de noite, De corpo inteiro, um livro de entrevistas, Visão do Esplendor e o seu último livro publicado no ano de sua morte A hora da estrela, uma novela.
Clarice Lispector tem um estilo literário inconfundível, presente em toda sua obra. A renovação da linguagem se encontra constante num grau que aproxima a prosa da poesia. Seus textos, apenas narram histórias, mas também apresentam a síntese e a força expressiva típicas da poesia. Além da linguagem, outro aspecto inovador na obra de Clarice é a visão do mundo que surge de suas histórias.
Mesmo tendo se iniciado como escritura numa época em que os romancistas brasileiros estavam voltados para a literatura regionalista ou de denúncia social, Clarice enfocou em seus textos o ser humano em suas angústias e questionamentos existenciais. Em suas narrativas, o enredo, bem como as personagens, as referências de tempo e espaço ganham novos significados: o enredo é quase sempre psicológico. O tempo e o espaço, por sua vez tem pouca influência sobre o comportamento das personagens; o tempo é psicológico e espaço é quase acidental.
A indiscutível originalidade e a perturbadora percepção da validade presentes na obra de Lispector a tornam única dentro da literatura brasileira. É impossível ficar-se indiferente diante do texto de Clarice, pois a força da sua linguagem, a intensidade das emoções das suas personagens atingem em cheio o leitor, provocando no mínimo um incômodo estranhamento. É como se o texto convidasse o leitor à desvendá-lo e, desvendando-o, descobrisse um pouco mais do ser humano.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011



Soneto de Fidelidade
Vinicius de Moraes

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.


Vinicius de Moraes, "Antologia Poética", Rio de Janeiro, 1960, pág. 96.

sábado, 3 de setembro de 2011

O humor literário de Machado de Assis

Memórias póstumas de Brás Cubas


Filme apresentado na disciplina de Literatura



Mar de gaúcho

Mar de gaúcho é imenso
mar de gaúcho é o todo
mar de gaúcho é Tchê!

Mar de gaúcho tem guri
mar de gaúcho tem laçador
mar de gaúcho tem erva

Mar de gaúcho tem mate
mar de gaúcho é povo
mar de gaúcho é culto

Mar de gaúcho é diverso
mar de gaúcho é bomba
mar de gaúcho tem bombacha

Mar de gaúcho tem bota
mar de gaúcho tem guerreiro
mar de gaúcho é faca na bota

Mar de gaúcho tem rio
mar de gaúcho tem espora
mar de gaúcho tem cavalo

Mar de gaúcho tem liberdade
mar de gaúcho tem várias etnias
mar de gaúcho é coragem

Mar de gaúcho é aprender
mar de gaúcho é acolhedor
 mar de gaúcho tem sol

Mar de gaúcho tem chuva
mar de gaúcho tem carreteiro
mar de gaúcho gado

Mar de gaúcho tem montanha
mar de gaúcho tem serrado
mar de gaúcho é céu limpo

Mar de gaúcho tem música
mar de gaúcho tem CTG
mar de gaúcho é dança

Mar de gaúcho água pura
mar de gaúcho tem campo
mar de gaúcho é verde

Mar de gaúcho tem neve
mar de gaúcho é luta
mar de gaúcho é garra

Mar de gaúcho é cultura
mar de gaúcho tem muita história
mar de gaúcho tem gaúcho

(Diego F.Souza)

quarta-feira, 31 de agosto de 2011


Mar de gaúcho

Mar de gaúcho é dança
mar de gaúcho é chimarrão
mar de gaúcho é herança
mar de gaúcho é tradição
mar de gaúcho é cultura
mar de gaúcho é igualdade
mar de gaúcho é agricultura
mar de gaúcho é liberdade
mar de gaúcho é tchê
mar de gaúcho é vaneirão
mar de gaúcho é CTG
mar de gaúcho é calçadão
mar de gaúcho é escola
mar de gaúcho é internacional
mar de gaúcho é bola
mar de gaúcho é grenal
mar de gaúcho é rio
mar de gaúcho é praça
mar de gaúcho é frio
mar de gaúcho é bombacha
mar de gaúcho é monumento
mar de gaúcho é bagual
mar de gaúcho é vento
mar de gaúcho é meridional
mar de gaúcho é cavalgada
mar de gaúcho é cidade
mar de gaúcho é gineteada
mar de gaúcho é barbaridade
mar de gaúcho é turismo
mar de gaúcho é árvore
mar de gaúcho é nativismo
mar de gaúcho é ave
mar de gaúcho é praça
mar de gaúcho é campo
mar de gaúcho é caça
mar de gaúcho é trampo
  (Moisés Noremberg)

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Mar de gaúcho

mar de gaúcho é chimarrão

mar de gaúcho é tchê
mar de gaúcho é vaneirão
mar de gaúcho é CTG
mar de gaúcho é erva-mate.
Mar de gaúcho é cultura
mar de gaúcho é grenal
mar de gaúcho é agricultura
mar de gaúcho é meridional
mar de gaúcho é tradicional.
Mar de gaúcho é turismo
mar de gaúcho é liberdade
mar de gaúcho é nativismo
mar de gaúcho é igualdade
mar de gaúcho é humanidade.
Mar de gaúcho é rio
mar de gaúcho é vento
mar de gaúcho é frio
mar de gaúcho é monumento
Mar de gaúcho é cavalgada
mar de gaúcho é árvore
mar de gaúcho é gineteada
mar de gaúcho é ave.
Mar de gaúcho é praça
mar de gaúcho é cidade
mar de gaúcho é bombacha
mar de gaúcho é barbaridade.
                                               (Mateus W. Noremberg)



Um caso de burro
Machado de Assis

Quinta-feira à tarde, pouco mais de três horas, vi uma coisa tão interessante, que determinei logo de começar por ela esta crônica. Agora, porém, no momento de pegar na pena, receio achar no leitor menor gosto que eu para um espetáculo, que lhe parecerá vulgar, e porventura torpe. Releve a importância; os gostos não são iguais.
Entre a grade do jardim da Praça Quinze de Novembro e o lugar onde era o antigo passadiço, ao pé dos trilhos de bondes, estava um burro deitado. O lugar não era próprio para remanso de burros, donde concluí que não estaria deitado, mas caído. Instantes depois, vimos (eu ia com um amigo), vimos o burro levantar a cabeça e meio corpo. Os ossos furavam-lhe a pele, os olhos meio mortos fechavam-se de quando em quando. O infeliz cabeceava, mais tão frouxamente que parecia estar próximo do fim.
Diante do animal havia algum capim espalhado e uma lata com água. Logo, não foi abandonado inteiramente; alguma piedade houve no dono ou quem quer que é que o deixou na praça, com essa última refeição à vista. Não foi pequena ação. Se o autor dela é homem que leia crônicas, e acaso ler esta, receba daqui um aperto de mão. O burro não comeu do capim, nem bebeu da água; estava já para outros capins e outras águas, em campos mais largos e eternos.
Meia dúzia de curiosos tinham parado ao pé do animal. Um deles, menino de dez anos, empunhava uma vara, e se não sentia o desejo de dar com ela na anca do burro para esperta-lo, então eu não sei conhecer meninos, porque ele não estava do lado do pescoço, mas justamente do lado da anca. Diga-se a verdade; não o fez - ao menos enquanto ali estive, que foram poucos minutos. Esses poucos minutos, porém, valeram por uma hora ou duas. Se há justiça na Terra valerão por um século, tal foi a descoberta que me pareceu fazer, e aqui deixo recomendada aos estudiosos.
O que me pareceu, é que o burro fazia exame de consciência. Indiferente aos curiosos, como ao capim e à água, tinha no olhar a expressão dos meditativos. Era um trabalho interior e profundo. Este remoque popular: por pensar morreu um burro mostra que o fenômeno foi mau entendido dos que a princípio o viram; o pensamento não é a causa da morte, a morte é que o torna necessário. Quanto à matéria do pensamento, não há dúvidas que é o exame da consciência. Agora, qual foi o exame da consciência daquele burro, é o que presumo ter lido no escasso tempo que ali gastei. Sou outro Champollion, porventura maior; não decifrei palavras escritas, mas idéias íntimas de criatura que não podia exprimi-las verbalmente.
E diria o burro consigo:“Por mais que vasculhe a consciência , não acho pecado que mereça remorso. Não furtei, não menti, não matei, não caluniei, não ofendi nenhuma pessoa. Em toda a minha vida, se dei três coices, foi o mais, isso mesmo antes haver aprendido maneiras de cidade e de saber o destino do verdadeiro burro, que é apanhar e calar. Quando ao zurro, usei dele como linguagem. Ultimamente é que percebi que me não entendiam, e continuei a zurrar por ser costume velho, não com idéia de agravar ninguém. Nunca dei com homem no chão. Quando passei do tílburi ao bonde, houve algumas vezes homem moto ou pisado na rua, mas a prova de que a culpa não era minha, é que nunca segui o cocheiro na fuga; deixava-me estar aguardando autoridade.”
“Passando à ordem mais elevada de ações, não acho em mim a menor lembrança de haver pensado sequer na perturbação da paz pública. Além de ser a minha índole contrária a arruaças, a própria reflexão me diz que, não havendo nenhuma revolução declarado os direitos do burro, tais direito não existem. Nenhum golpe de estado foi dado em favor dele; nenhuma coroa os obrigou. Monarquia democracia, oligarquia, nenhuma forma de governo, teve em conta os interesses da minha espécie. Qualquer que seja o regímen, ronca o pau. O pau é a minha instituição um pouco temperada pela teima que é, em resumo, o meu único defeito. Quando não teimava, mordia o freio dando assim um bonito exemplo de submissão e conformidade. Nunca perguntei por sóis nem chuvas; bastava sentir o freguês no tílburi ou o apito do bonde, para sair logo. Até aqui os males que não fiz; vejamos os bens que pratiquei.”
“A mais de uma aventura amorosa terei servido, levando depressa o tílburi e o namorado à casa da namorada - ou simplesmente empacando em lugar onde o moço que ia no bonde podia mirar a moça que estava na janela. Não poucos devedores terei conduzido para longe de um credor importuno. Ensinei filosofia a muita gente, esta filosofia que consiste na gravidade do porte e na quietação dos sentidos. Quando algum homem, desses que chamam patuscos, queria fazer rir os amigos, fui sempre em auxílio deles, deixando que me dessem tapas e punhadas na cara. Em fim...”
Não percebi o resto, e fui andando, não menos alvoroçado que pesaroso. Contente da descoberta, não podia furtar-me à tristeza de ver que um burro tão bom pensador ia morrer. A consideração, porém, de que todos os burros devem ter os mesmos dotes principais, fez-me ver que os que ficavam, não seriam menos exemplares do que esse. Por que se não investigará mais profundamente o moral do burro? Da abelha já se escreveu que é superior ao homem, e da formiga também, coletivamente falando, isto é, que as suas instituições políticas são superiores às nossas, mais racionais. Por que não sucederá o mesmo ao burro, que é maior?
Sexta-feira, passando pela Praça Quinze de Novembro, achei o animal já morto.
Dois meninos, parados, contemplavam o cadáver, espetáculo repugnante; mas a infância, como a ciência, é curiosa sem asco. De tarde já não havia cadáver nem nada. Assim passam os trabalhos deste mundo. Sem exagerar o mérito do finado, força é dizer que, se ele não inventou a pólvora, também não inventou a dinamite. Já é alguma coisa neste final de século. Requiescat in pace.


(...)“Aprendemos palavras para melhorar os olhos.”
“As palavras só
têm sentido
se nos ajudam a ver
o mundo melhor.”(...)
(Educar- Rubem Alves)

segunda-feira, 29 de agosto de 2011



A Coesão em uma redação


A sua redação, seja ela, dissertativa, descritiva ou narrativa, deve primar, pela clareza, objetividade, coerência e coesão. E a coesão, como o próprio nome diz (coeso significa ligado), é a propriedade que os elementos textuais têm de estar interligados. De um fazer referência ao outro. De o sentido de um depender da relação com o outro.
 Preste atenção a este texto, observando como as palavras se comunicam, como dependem uma das outras.
E como retomar os elementos do texto? Podemos enumerar alguns mecanismos:

a)    REPETIÇÃO
A repetição pode ser considerada a mais explícita ferramenta de coesão. Na dissertação cobrada pelos vestibulares, obviamente deve ser usada com parcimônia, uma vez que um número elevado de repetições pode levar o leitor à exaustão.

b)    REPETIÇÃO PARCIAL
Quando os nomes em questão são de celebridades (políticos, artistas, escritores, etc.), é de praxe, durante o texto, utilizar a nominalização por meio da qual são conhecidas pelo público. Exemplos: Nedson (para o prefeito de Londrina, Nedson Micheletti); Farage (para o candidato à prefeitura de Londrina em 2000 Farage Khouri); etc. Nomes femininos costumam ser retomados pelo primeiro nome, a não ser nos casos em que os sobrenomes sejam, no contexto da matéria, mais relevantes e as identifiquem com mais propriedade.

c)    SUBSTITUIÇÕES
Uma das mais ricas maneiras de se retomar um elemento já citado ou de se referir a outro que ainda vai ser mencionado é a substituição, que é o mecanismo pelo qual se usa uma palavra (ou grupo de palavras) no lugar de outra palavra (ou grupo de palavras). Confira os principais elementos de substituição:

- Pronomes: a função gramatical do pronome é justamente substituir ou acompanhar um nome. Ele pode, ainda, retomar toda uma frase ou toda a idéia contida em um parágrafo ou no texto todo
Veja exemplos de substituição pronominal:

a) Muitos brasileiros estavam assistindo à corrida, mas isso não bastou para que Rubinho vencesse a prova (o pronome demonstrativo isso retoma a idéia, expressa anteriormente, de que muitos brasileiros estavam assistindo à corrida).

b) Em época de fim de ano, as pessoas que trabalham com carteira assinada recebem o 13° salário, o que aquece a economia do país (o pronome demonstrativo o retoma o fato de as pessoas trabalharem com carteira assinada);

c) A Jonas Ricardo foram atribuídas atitudes violentas. Segundo sua esposa, ele a agrediu na última segunda-feira... (o pronome pessoal ele retoma Jonas Ricardo; o pronome pessoal a retoma sua esposa); etc.

- Epítetos: são palavras ou grupos de palavras que, ao mesmo tempo em que se referem a um elemento do texto, qualificam-no. Essa qualificação pode ser conhecida ou não pelo leitor. Caso não seja, deve ser introduzida de modo que fique fácil a sua relação com o elemento qualificado.
Exemplos:
a) (...) foram elogiadas pelo por Fernando Henrique Cardoso. O presidente, que voltou há dois dias de Cuba, entregou-lhes um certificado... (o epíteto presidente retoma Fernando Henrique Cardoso; poder-se-ia usar, como exemplo, sociólogo);

b) Edson Arantes de Nascimento gostou do desempenho do Brasil. Para o ex-Ministro dos Esportes, a seleção... (o epíteto ex-Ministro dos Esportes retoma Edson Arantes do Nascimento; poder-se-iam, por exemplo, usar as formas jogador do século, número um do mundo, etc.

Sinônimos ou quase sinônimos: palavras com o mesmo sentido (ou muito parecido) dos elementos a serem retomados.
 Exemplo: O prédio foi demolido às 15h. Muitos curiosos se aglomeraram ao redor do edifício, para conferir o espetáculo (edifício retoma prédio. Ambos são sinônimos).


Elementos classificadores e categorizadores: referem-se a um elemento (palavra ou grupo de palavras) já mencionado ou não por meio de uma classe ou categoria a que esse elemento pertença: Uma fila de centenas de veículos paralisou o trânsito da Avenida Higienópolis. O protesto foi a maneira encontrada... (protesto retoma toda a idéia anterior, da paralisação, categorizando-a como um protesto); Quatro cães foram encontrados ao lado do corpo. Ao se aproximarem, os peritos enfrentaram a reação dos animais (animais retoma cães, indicando uma das possíveis classificações que se podem atribuir a eles).

Advérbios: palavras que exprimem circunstâncias, principalmente as de lugar: Em São Paulo, não houve problemas. Lá, os operários não aderiram... (o advérbio de lugar lá retoma São Paulo). Exemplos de advérbios que comumente funcionam como elementos referenciais, isto é, como elementos que se referem a outros do texto: aí, aqui, ali, onde, lá, etc.

Observação: É mais freqüente a referência a elementos já citados no texto. Porém, é muito comum a utilização de palavras e expressões que se refiram a elementos que ainda serão utilizados. Exemplo: Izidoro Andrade  é conhecido na região como um dos maiores compradores de cabeças de gado do Sul do país. Márcio Ribeiro era um dos sócios do Frigorífico Naviraí, empresa proprietária do bimotor. A palavra região serve como elemento classificador de Sul (A palavra Sul indica uma região do país), que só é citada na linha seguinte.


Conexão

Além da constante referência entre palavras do texto, observa-se na coesão a propriedade de unir termos e orações por meio de conectivos, que são representados, na Gramática, por inúmeras palavras e expressões. A escolha errada desses conectivos pode ocasionar a deturpação do sentido do texto. Abaixo, uma lista dos principais elementos conectivos, agrupados pelo sentido. Baseamo-nos no autor Othon Moacyr Garcia (Comunicação em Prosa Moderna).
Prioridade, relevância: em primeiro lugar, antes de mais nada, antes de tudo, em princípio, primeiramente, acima de tudo, precipuamente, principalmente, primordialmente, sobretudo, a priori (itálico), a posteriori (itálico).

Tempo (freqüência, duração, ordem, sucessão, anterioridade, posterioridade): então, enfim, logo, logo depois, imediatamente, logo após, a princípio, no momento em que, pouco antes, pouco depois, anteriormente, posteriormente, em seguida, afinal, por fim, finalmente agora atualmente, hoje, freqüentemente, constantemente às vezes, eventualmente, por vezes, ocasionalmente, sempre, raramente, não raro, ao mesmo tempo, simultaneamente, nesse ínterim, nesse meio tempo, nesse hiato, enquanto, quando, antes que, depois que, logo que, sempre que, assim que, desde que, todas as vezes que, cada vez que, apenas, já, mal, nem bem.

Semelhança, comparação, conformidade: igualmente, da mesma forma, assim também, do mesmo modo, similarmente, semelhantemente, analogamente, por analogia, de maneira idêntica, de conformidade com, de acordo com, segundo, conforme, sob o mesmo ponto de vista, tal qual, tanto quanto, como, assim como, como se, bem como.

Condição, hipótese: se, caso, eventualmente.

Adição, continuação: além disso, demais, ademais, outrossim, ainda mais, ainda cima, por outro lado, também, e, nem, não só ... mas também, não só... como também, não apenas ... como também, não só ... bem como, com, ou (quando não for excludente).

Dúvida: talvez provavelmente, possivelmente, quiçá, quem sabe, é provável, não é certo, se é que.

Certeza, ênfase: decerto, por certo, certamente, indubitavelmente, inquestionavelmente, sem dúvida, inegavelmente, com toda a certeza.

Surpresa, imprevisto: inesperadamente, inopinadamente, de súbito, subitamente, de repente, imprevistamente, surpreendentemente.

Ilustração, esclarecimento: por exemplo, só para ilustrar, só para exemplificar, isto é, quer dizer, em outras palavras, ou por outra, a saber, ou seja, aliás.

Propósito, intenção, finalidade: com o fim de, a fim de, com o propósito de, com a finalidade de, com o intuito de, para que, a fim de que, para.

Lugar, proximidade, distância: perto de, próximo a ou de, junto a ou de, dentro, fora, mais adiante, aqui, além, acolá, lá, ali, este, esta, isto, esse, essa, isso, aquele, aquela, aquilo, ante, a.

Resumo, recapitulação, conclusão: em suma, em síntese, em conclusão, enfim, em resumo, portanto, assim, dessa forma, dessa maneira, desse modo, logo, pois (entre vírgulas), dessarte, destarte, assim sendo

Causa, conseqüência ou Explicação: por conseqüência, por conseguinte, como resultado, por isso, por causa de, em virtude de, assim, de fato, com efeito, tão (tanto, tamanho) ... que, porque, porquanto, pois, já que, uma vez que, visto que, como (= porque), portanto, logo, que (= porque), de tal sorte que, de tal forma que, haja vista.

Contraste, oposição, restrição ou ressalva: pelo contrário, em contraste com, salvo, exceto, menos, mas, contudo, todavia, entretanto, no entanto, embora, apesar de, ainda que, mesmo que, posto que, posto, conquanto, se bem que, por mais que, por menos que, só que, ao passo que.

Idéias alternativas: Ou, ou... ou, quer... quer, ora... ora.
Estrutura de uma Dissertação
CARACTERÍSTICAS
Discute um assunto apresentando pontos de vista e juízos de valor.
INTRODUÇÃO
Apresenta a síntese do ponto de vista a ser discutido (tese).
DESENVOLVIMENTO
Amplia e explica o parágrafo introdutório. Expõe argumentos que evidenciam posição crítica, analítica, reflexiva, interpretativa, opinativa sobre o assunto.
CONCLUSÃO
Retoma sinteticamente as reflexões críticas ou aponta as perspectivas de solução para o que foi discutido.
RECURSOS
Linguagem referencial, objetiva; evidências, exemplos, justificativas e dados.
O QUE SE PEDE
Capacidade de organizar idéias (coesão), conteúdo para discussão (cultura geral), linguagem clara, objetiva, vocabulário adequado e diversificado.